No Reino dos Faraós

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O templo de Karnak

A cidade de Abu Simbel

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Existem tesouros da velha civilização egípcia espalhados por museus e praças de vários lugares do mundo, mas nenhum deles consegue fascinar tanto quanto aqueles que permanecem em seu ambiente original, nos templos e palácios localizados à beira do Rio Nilo.

Por Ricardo Westin*. Especial para a The Traveller. 

 

Quando conheci Istambul, anos atrás, uma experiência me deixou com a pulga atrás da orelha. Todas as grandes atrações da cidade me arrebataram, menos uma. Ao contrário do Estreito de Bósforo, da Torre de Gálata, do Grande Bazar, dos palácios dos sultões e das mesquitas, o obelisco egípcio não conseguiu me tocar. Esculpido pelos faraós há 3.500 anos e transportado para o local atual, ao lado da Mesquita Azul, há 1.600 anos, o obelisco de granito tem seus 20 metros de altura ornamentados com os clássicos hieróglifos egípcios. Como fui capaz de ficar apático diante de tal tesouro? Insensibilidade? Ignorância? Cansaço após um dia puxado de passeios? Num efeito retardado, só decifrei esse enigma pessoal poucos meses atrás, quando eu vivia o sonho de infância de percorrer o Egito.

Num cruzeiro pelo Rio Nilo com paradas em templos e tumbas que remontam ao Antigo Egito, compreendi que, por mais ancestral e rara que seja, uma peça vinda do passado carrega muito mais significado quando a vemos em seu contexto original.

O obelisco de Istambul foi arrancado do Templo de Karnak, localizado no que hoje é a cidade Luxor. Na minha viagem recente, conheci os dois obeliscos que restam de pé em meio às ruínas de Karnak. Eles aparentam ser idênticos ao que foi carregado para Istambul, mas… como são mais eloquentes! Os dois obeliscos vigiam, do alto, uma profusão de estátuas de deuses e faraós e de colunas e paredões repletos de hieróglifos. Contemplando tudo isso preservado em seu próprio ambiente, eu senti como se de fato tivesse retrocedido no tempo e enxergasse os primórdios da civilização.

Sob o efeito hipnótico dos obeliscos, acabei por intuição criando uma tese particular: eles seriam os mais antigos ancestrais das torres das igrejas e dos minaretes das mesquitas, com a missão prática de permitir que os antigos egípcios que vinham de longe se localizassem e conseguissem chegar ao Templo de Karnak. No contexto nada egípcio de Istambul, eu jamais seria tomado por divagações que me levassem tão longe. Em Istambul, eu supus que os obeliscos fossem grandes blocos de pedra empilhados com perfeição. No Egito, constatei que não é nada disso. Trata-se de uma peça única e colossal. Na cidade de Assuã, conheci um obelisco que a velha civilização faraônica, por causa de rachaduras, abandonou inacabado, esculpido diretamente na montanha de granito, deitado, faltando apenas os talhos finais para ser destacado da pedra e transportado para o Templo de Karnak. Diante do obelisco que repousa incompleto em Assuã, eu pude criar a imagem mental de um exército trabalhadores atacando a montanha com picaretas para dar forma ao monumento.

Museus espalhados pelo mundo inteiro ostentam tesouros do Antigo Egito, como o British Museum, de Londres, e o Neues Museum, de Berlim. Até mesmo o Museu Nacional, do Rio, dispõe de uma múmia genuína, que o imperador dom Pedro II trouxe para o Brasil como lembrança de uma segunda viagem ao Egito.

Não se trata de fazer pouco caso dessas coleções, pois elas cumprem uma missão educativa e cultural muito nobre, mas não há como negar que, apresentadas a quilômetros e quilômetros de distância de onde foram recolhidas, as peças perdem bastante do seu poder de comunicação e de encantamento.Foi na viagem ao Egito que a crença dos faraós na vida eterna tornou-se visível para mim, palpável até. O Vale dos Reis é um ponto camuflado das montanhas, bem longe da cobiça dos ladrões, onde túneis escavados na rocha conduzem às câmaras nas quais as múmias dos reis eram sepultadas. O que mais me surpreendeu foi a dimensão das tumbas, imensas, com espaço suficiente abrigar as joias, as roupas, os móveis, as carruagens e até os alimentos que garantiriam o conforto dos faraós no outro mundo.

No Templo de Abu Simbel, um detalhe numa das estátuas me intrigou: a inscrição “Drovetti 1816” sulcada no pé do faraó. Perguntei ao meu guia sobre a identidade daquele “vândalo” de 200 anos atrás, e ele respondeu que se tratava de Bernardino Drovetti, cônsul da França no Egito. Após a queda dos faraós, a cultura do Antigo Egito atravessou a Idade Média e a Idade Moderna relegada ao esquecimento. Templos inteiros foram soterrados por tempestades de areia e assim permaneceram durante séculos. O resgate começou em 1798, quando a França enviou para o Egito uma tropa liderada pelo general Napoleão Bonaparte e também, de quebra, uma expedição de arqueólogos. Foram estes últimos que reapresentaram o Antigo Egito ao mundo. Como representante do governo francês no Egito, Drovetti foi uma das primeiras pessoas a entrar em Abu Simbel após o achado dos arqueólogos. Num costume provavelmente aceitável naquela época, o cônsul decidiu deixar sua marca no monumento – e acabou me apresentando o capítulo pouco conhecido da redescobrimento do mundo egípcio.

Assim que tive o estalo a respeito do obelisco de Istambul, corri para compartilhar a descoberta com o meu guia egípcio. Ele riu e, num arroubo nacionalista, fez um discurso sobre a necessidade de o monumento ser devolvido ao Egito. E ainda me contou que não se tratava de um caso isolado. Torres de pedra que fizeram parte do Templo de Karnak hoje enfeitam a Place de la Concorde, em Paris, e uma pracinha perto do Coliseu, em Roma. Levei um susto. Eu já estive nas duas cidades mais de uma vez, mas não guardava sequer a mais vaga lembrança dos monumentos egípcios. Não me culpo. Entendo que não houve insensibilidade nem ignorância da minha parte. Além disso, ganhei um motivo novo para voltar a Istambul, Roma e Paris: graças a tudo que vivi e aprendi no cruzeiro pelo Rio Nilo, sei que agora enxergarei os obeliscos expatriados com outros olhos.

 

* Ricardo Westin é jornalista, escritor e cientista político radicado em Brasília, que tem entre seus principais interesses as viagens e a história. É colaborador da Teresa Perez desde 2012, criando conteúdo para as publicações da agência.

Categories: Destinos, Dicas

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